Caminhando lentamente, cruzei mais um planalto cujos obstáculos me desviavam constantemente de meu azimute por culpa dos imensos blocos de pedra cercados por perigosas moitas e depressões no solo. Eu era obrigado a desviar temporariamente minha direção, retornando ao azimute logo que era possível.
De repente, quando meu relógio marcava 1h51 da madrugada, vi ao longe uma pequena luz branca em movimento. Em um pequeno intervalo entre as folhagens que encobriam esta visão, pude perceber uma luz vermelha. É claro que deveria ser um carro! Finalmente a havia encontrado. O prazer foi tão grande, e o relaxamento maior ainda, que resolvi deitar um pouco e admirar novamente este brilhante céu que me cobria, já que a solução do perrengue já havia ocorrido.
Passados dez minutos de descanso, levantei-me e parti com disposição, apesar de continuar desidratado e muito longe do ponto final. Entre as duas opções possíveis ― aguardar amanhecer e continuar a caminhar ou seguir naquele momento ―, escolhi continuar me arranhando no escuro, porém encontrar água mais rapidamente.
Esta caminhada aconteceu, novamente, dentro de um grande curso d’água ressecado, com rochas imensas e vegetação espinhosa, com jeito de ser uma região selvagem e virgem. Tive a sensação de ser o primeiro a colocar os pés ali.
A partir dali, com a impressão de estar seguindo na direção correta, associei meu azimute leste com uma formação de estrelas que, se não me falha a memória, usei-a em uma situação muito semelhante a esta no Sahara, quando corri a Marathon des Sables. E, exatamente como antes, o caminho tortuoso parecia confirmar que eu estava chegando ao ponto final.
Mas este ponto nunca chegava…
Finalmente, quando meu relógio marcou 3h37 da madrugada, pisei na tão aguardada estrada de terra. Fiquei tão aliviado por ter me safado de mais esta roubada que esqueci um pouco a garganta em brasas e não segui para nenhum dos dois lados. Simplesmente, deitei-me no acostamento e dormi tranquilamente.
Perto de 5h da manhã, um carro parou ao meu lado. Um fotógrafo de natureza que pretendia tirar fotos antes do nascer do sol, me ofereceu carona e perguntou se eu precisava de algo.
― “Água!!!!!”, respondi.
Inconformado por ter esquecido sua garrafa, ele me deu um café com leite quente sem açúcar, único líquido que ele tinha no momento, e que tentei saciar a sede, não deixando um gole sequer no copo. Após tirar as fotografias que ele queria, no mirante existente no final desta via, retornamos e fui, finalmente, deixado no ponto de encontro onde Odette preocupada me esperava, tentando dormir um pouco.
Enquanto contava as minhas estórias e ouvia as dela, passada com alguns coiotes que a cercaram por mais de duas horas, enquanto ela montava guarda à minha espera, bebi alguns litros de água, isotônico, Coca-Cola e tudo o mais que havia no carro.
Depois disto, um banho inesquecível e algumas horas de sono me fizeram retornar à realidade, já pensando no próximo deserto. E, quem sabe, desta vez, levando um GPS…