Carregando quatro litros, entre água e isotônico, algumas barras energéticas, saches de carboidrato em gel, batatas fritas, castanhas, casaco, lanterna, pilhas, bússola, mapa, meias sobressalentes e filtro solar, com o peso total em torno de seis quilos, comecei minha aventura no Entrada Oeste do parque nacional, pontualmente às 8h de uma linda manhã.
Nos primeiros minutos, a ansiedade da novidade já estava controlada. Com o material de navegação guardado, me lembrava da garantia que os guarda-parques nos deram sobre a atualizada marcação dos trajetos. Depois da primeira hora, cheguei a uma encruzilhada que não possuía marcação visível. Fui obrigado então a fazer o que é mais desagradável a um corredor de trilhas, antes da difusão do GPS: parar, abrir a carta topográfica e tentar se orientar. Nesta hora perde-se todo o ritmo que, a duras penas, se consegue atingir correndo sobre areia fofa, com uma carga pesada nas costas, concentrado no que se está fazendo, tentando se desviar dos arbustos cortantes e dos locais em que a pisada irá afundar mais do que o normal.
A visão do ambiente quando se está correndo é completamente diferente de quando andamos. Por mais rápido que possamos estar em uma caminhada, sempre é tranquilo abrir um mapa e conferir sua posição, algumas vezes até sem precisar parar. Quando corremos em regiões selvagens, sejam elas na Mata Atlântica ou em um deserto, necessitamos estar constantemente olhando onde pisamos e o que está à frente do rosto, sempre tentando evitar acidentes. Os obstáculos surgem muito rapidamente quando corremos em um ambiente outdoor e, se desejamos olhar uma carta topográfica, devemos obrigatoriamente parar. E isto só faço em último caso quando estou correndo. Às vezes, tardiamente, somente após o tal “último caso” …
Continuei por algum tempo, sempre seguindo o percurso bem demarcado, bebendo a cada oito minutos, lembrado sempre pelos apitos do meu fiel despertador automático que sempre uso nestas ocasiões. No meu outro punho carregava um frequencímetro cardíaco que, constantemente, era monitorado com o intuito de conferir se meu esforço cardiopulmonar continuava abaixo do limite definido pra este desafio ― cento e cinquenta batimentos por minuto ―, valor este que, na minha condição de bradicárdico (meu coração bate mais lentamente, como resultado de muitos anos de atividade aeróbica), representavam uma velocidade tal que não me esgotasse durante as várias horas de atividade física que havia pela frente.
Mais uma vez me deparei com um trecho dúbio, sentindo-me obrigado a parar e orientar-me. Como já estava em atividade há quase duas horas, e o peso nas costas não diminuía, apesar de me estar hidratando regularmente, aproveitei e me alonguei e comi algumas batatas fritas, já que as barras e o gel de carboidrato já estavam começando a me enjoar. Aliás, o que sempre me acontece depois da quarta barra, durante uma atividade extenuante como esta. Passada a terceira hora, comecei a notar que a vegetação estava se alterando. Eu não encontrava mais nenhuma joshua tree, mas sim uma prima distante dela, além de umas horrorosas bolas de espinhos que, ao grudarem na perna, me recordavam as histórias ouvidas quando era criança, a respeito da mordida da perereca, que só te soltava durante um trovão em noite de forte tempestade. Estas bolas só eram possíveis de serem arrancadas dos pelos da perna com auxílio de um graveto. E, várias vezes, a bola apenas pulava e mudava de lugar na perna. Esta operação era pior do que as paradas necessárias para orientação.