A ideia deste desafio surgiu durante a leitura casual de uma reportagem sobre o Parque Nacional da Tijuca. Após alguns meses dedicado ao estudo de mapas e dois anos com os pés na trilha, Pedro Menezes, diretor do Parque na época, unificou cerca de 42 km de trilhas em um árduo trabalho de reabertura de antigos caminhos fechados pelo desuso e eliminação de atalhos indesejados criados por montanhistas descuidados, criando a Trilha Externa Major Archer. Sem precisar abrir nenhuma trilha nova, conseguiu garantir a continuidade do percurso completo!
Para coexistir com a proibição oficial de pernoites dentro dos limites do Parque, houve a preocupação em fazer com que cada dia de caminhada terminasse em algum ponto acessível por asfalto. Assim, ao final de cada dia, o montanhista se deslocaria para fora do Parque, continuando o trecho seguinte em uma próxima oportunidade, completando o percurso total em quatro dias de caminhadas.
Com a atenção sempre voltada para corridas em trilha, a primeira coisa em que pensei ao ler a reportagem foi, como sempre: “se existe o caminho, quero percorrê-lo correndo!”. Ato contínuo, liguei para Giovanni Mello que, logicamente, aceitou na hora o desafio, sem ao menos pedir tempo para pensar.
Dias depois estávamos na Floresta da Tijuca, em plena Trilha Major Archer, fazendo anotações de tempos e distâncias. Exatamente neste dia, coincidentemente, encontramos Pedro Menezes por lá e apresentamos nosso projeto. Ele nos deu total apoio e combinamos um contato futuro para conseguirmos mais informações.
Como os projetos de corridas em trilha estão sempre fervilhando em nossas mentes, colocamos temporariamente esse desafio de lado para concretizar dois outros projetos que já se encontravam em andamento: a corrida no Deserto de Mojave e a volta na Ilha Grande.
Ao fazermos o planejamento dos desafios de 2002, decidimos voltar à ideia da Trilha Externa Major Archer, que muito nos agradava, principalmente por homenagearmos nossa cidade e divulgarmos as diversas opções de caminhadas disponíveis na maior floresta urbana do mundo, tentando quebrar a velha trilogia “Pico da Tijuca-Bico do Papagaio-Morro da Cocanha”.
Durante a fase de estudo e análise do desafio, anotamos os tempos de cada ponto da trilha, incluindo todos os desvios, pois era nesses trechos que se concentravam as maiores variações de altitude e aclives desafiadores. Com o esforço despendido nestas caminhadas e os dados coletados, fizemos projeções de que seria possível correr a trilha inteira em menos de nove horas, talvez oito.
Com o apoio da Osklen e do movimento e-brigade, decidimos marcar o dia 4 de agosto para o “Desafio Volta na Floresta”. Porém, com a aproximação da data, as previsões meteorológicas pintaram os céus com todos os tons de cinza que indicavam chuva.
Como nosso objetivo era correr, não caminhar, tentamos evitar ao máximo a passagem por terrenos lamacentos e escorregadios, principalmente depois de nossa molhada experiência noturna na Volta na Ilha Grande, quando perdemos bastante tempo evitando os tombos causados pelo solo escorregadio, além de diminuirmos drasticamente a velocidade.
Acreditando nas previsões dos meteorologistas, que prometiam “de céu meio encoberto a sol”, transferimos o Desafio para o dia 7 de agosto. Na véspera, à tarde, porém, o Rio de Janeiro foi o epicentro de ventos que atingiram 90 km/h e as previsões oficiais, claro, foram alteradas para “chuvas e trovoadas”. Como o preparo logístico e psicológico estava mais do que pronto — leia-se: sem a menor vontade de adiar novamente! ―, decidimos manter a data combinada. A manhã do dia do Desafio, apesar de a rede mundial de computadores, torres e satélites dedicados à previsão do tempo garantirem muitas trovoadas, presenteou-nos com um céu completamente esquecido de pendurar uma nuvem sequer para nos refrescar com uma pequena sombra durante a corrida. (Tá certo que não queríamos chuva, mas…)