Correndo no Deserto de Mojave – parte 8

Alguns dissabores e muitas leves escoriações depois, na tentativa de seguir os deslocamentos dos coiotes, a inclinação do sol começou a me lembrar que restava pouco tempo de claridade. Mais precisamente, uma hora. E eu continuava sem muitas opções de percurso. Aliás, nenhuma! Todas que apareceram pelo caminho não levavam a lugar algum. Baseado, então, nesta perspectiva não muito animadora, decidi pela estratégia mais radical em termos de orientação. Sim, exatamente o que você deve estar pensando: orientação por força bruta. Eu escolheria uma direção e não me desviaria dela por nada, seja o que aparecesse no caminho, fossem blocos de rocha, espinhos ou até trechos íngremes.

Odette estava ― ou ainda deveria estar, após todas essas horas ― estacionada em um caminho de terra que cortava um trecho do parque na direção norte-sul, iniciando na via asfaltada que contorna o parque, terminando na beira de um precipício. Essa estrada era utilizada pelos guarda-parques quando necessitavam se aprofundar de maneira prática no meio da área fechada.

Pelo material de orientação, concluí que deveria marcar o azimute leste e seguir com determinação, independente do que houvesse pelo caminho, sem me desviar um grau sequer. Assim, chegaria até esta via mais cedo ou mais tarde.

Comecei a caminhada consciente de que haveria aclives e declives íngremes, porém a noite me pegaria em atividade. Isto não seria problema, pois, apesar do plano de encontrar minha equipe de Apoio no início da tarde, havia trazido casaco, lanterna e pilhas sobressalentes. Vai que…

Já no início, o caminho ficou mais íngreme do que eu esperava, e sempre cruzando trilhas com incontáveis marcas deixadas pelos animais. Apesar de curioso, não estava com vontade nenhuma de encontrar seus donos.

Depois de uma descida e mais um imenso aclive bastante íngreme, a noite teimou em aparecer. Sentindo necessidade de me proteger do forte sopro cortante frio que começava a ficar insistente, sentei-me e vesti o casaco. Por um impulso mais forte do que minha vontade de terminar esse sufoco, deitei-me com a cabeça sobre a mochila, pensando em descansar alguns minutos. Minhas pernas só podiam ficar esticadas. Ao mudar de posição, as câimbras insistiam em marcar presença. E, desta maneira, de short e casaco, adormeci ao vento.

Quando acordei, já havia passado quase duas horas. Meu relógio marcava perto de nove e meia da noite e meu frequencímetro cardíaco indicava o gasto de oito mil e quatrocentos quilocalorias até aquele momento. Desconectei a tira do meu peito diminuindo o incômodo, já que mirava agora a minha sobrevivência.

Completamente sem disposição, bebi mais um gole de isotônico, que a esta altura já havia entrado em ritmo de racionamento, e continuei sentado por um bom tempo, tentando encontrar ânimo e retornar à atividade.

Depois de quase trinta minutos, um pouco mais descansado, escolhi a maneira mais lógica de sobreviver em um deserto: caminhar à noite o máximo possível e, se necessário, me abrigar durante o dia. Neste caso, meu otimismo me fazia crer que sairia dessa roubada em poucas horas, não precisando me abrigar durante o dia.

Parti então na direção definida, sempre objetivando a via de serviço dos Rangers. Otimista, subi o que imaginei ser o último aclive antes do vale no qual eu supunha ― e torcia! ― que a avistaria ao longe. Quarenta e cinco minutos depois, quando cheguei ao alto da elevação, vi mais um vale com outra montanha a seguir, fui obrigado a fazer uso do meu experimentado preparo psicológico neste tipo de furada.

Ainda com o moral mais ou menos alto, certo de que estava no rumo certo, parei novamente, me hidratei e descansei um pouco, sentado sobre uma rocha que parecia uma mesa. Porém, cansado pelo excesso de desgaste físico, recostei-me novamente e dormi. Entre um cochilo e outro, olhando um brilhante céu, que só costumo presenciar onde o ar é extremamente puro, testemunhei uma estrela cadente, um rasgo de luz no silêncio noturno, que, pela intensidade, havia entrado na atmosfera em um ponto muito perto dali.

Pouco tempo depois, levantei tonto. Sentindo cada vez mais forte os efeitos da desidratação, me veio a lembrança de um trekking em solitário, de oitenta e cinco quilômetros em apenas um dia, que havia feito no sequíssimo Atacama, tentando alcançar a base do Vulcão Licancabur. Naquela antiga noite eu havia sentido a pior sede de toda a minha vida. Marcas do passado… Esta agora superou qualquer recorde anterior.

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