Por um longo tempo, corri naquele vale pedregoso. Enquanto tentava imaginar como seria diferente a paisagem se este rio estivesse exercendo a sua função básica existencial ― carrear água ―, eu ia subindo e descendo grandes blocos de rocha, empurrados até lá em priscas eras.
Apesar destes obstáculos, a corrida continuava fluindo bem. A diminuição do peso nas costas, por conta da ausência de grande parte da água e do isotônico que eu havia levado, facilitava essa boa velocidade, apesar de mais de seis horas contínuas de atividade com um sol inclemente no alto e uma areia mais inclemente ainda embaixo…
Inesperadamente, o curso d’água fez uma curva e entrou em um tenebroso cânion. Um pouco distraído e deslumbrado com a beleza agressiva e opressora causada por duas paredes com algumas dezenas de metros, quase que completamente verticais e separadas por pouco mais de dez metros, continuei por mais algum tempo, imaginando que aquilo teria um fim rapidamente. Enganei-me. Após algumas curvas que saíam e retornavam à direção correta repetidas vezes, parei e tornei a olhar o mapa.
― “O que é isto?!”, pensei.
Não deveria existir nenhuma elevação neste trecho, segundo o material de navegação à minha frente. E, com certeza, as paredes possuíam muito mais do que os oitenta pés da distância entre as curvas de nível visualizadas no material de orientação. Como era fácil deduzir com esta simples constatação técnica, eu não estava no local que imaginava. E, talvez, nem no rio que até então tinha certeza de estar. Desta vez, me rendi ao fato de que necessitava, realmente, parar com calma, entender onde estava e a direção que deveria seguir. Sentei-me calmamente, abri o material de orientação no chão e procurei o trecho em que aparecia um curso d’água abruptamente dentro de um cânion. Porém, não consegui encontrar nada. Por mais que examinasse pacientemente cada centímetro quadrado, nada tinha cara ou jeito de cânion…
― “Não acredito!”, devo ter gritado repentinamente.
A única possibilidade, em toda a região, de um rio que entra em um cânion, localizava-se muito distante de onde eu pensava estar. E, o que era muito pior, também distante do rumo planejado. Passado o primeiro impacto desta constatação, continuei tentando entender onde teria acontecido o erro que me desviou tanto do caminho correto, na tentativa de reverter todo este processo. Percebi então que, no mapa, havia uma trilha legendada como “primitive unmaintained trail” (“trilha primitiva sem manutenção”), que cruzava meu percurso original e seguia até o… adivinhem … sim, o cânion!