Correndo no Deserto do Saara

Este é o primeiro capítulo do livro no qual conto os perrengues que passei na Maratona das Areias, a temível Marathon des Sables

Correndo a Pé no Saara: 230 km de areia e dunas na Marathon des Sables

175 batimentos por minuto.

Meu coração parecia explodir. Eu corria sobre um mar de areia, subindo e descendo dunas. O sol escaldava como se fosse uma lâmina de fogo, arrancando suor de cada poro e tornando o ar difícil de respirar. Cada passada era um desafio, como se o deserto me testasse a cada passo.

As dunas brilhavam em tons de laranja e marrom sob o céu azul ofuscante. Eu já tinha corrido 25 quilômetros, lutando contra a areia que engolia cada passada. O horizonte era um oceano escaldante de areia, sem sombra ou alívio à vista!

Os últimos dois quilômetros, agora de terra dura, testavam minha resistência. Cada passada parecia despertar pedras que insistiam em ferir meus pés, mesmo através do tênis. Mas ultrapassar dezenas de competidores me dava força para ignorar o apito incessante do frequencímetro e seguir em frente.

Corri mais dois quilômetros até avistar algo ao longe, diferente de tudo que eu conhecia no deserto. Segui naquela direção tentando entender. Minutos depois, a confirmação: era o pórtico do acampamento. O alívio que esperei por quilômetros, finalmente estava ali.

Eu havia chegado à região de Khermou, no coração do deserto do Saara.

Em pouco mais de quatro horas, venci os 30 quilômetros do primeiro dia da ultramaratona mais temida do planeta.

E eu era o primeiro brasileiro a conseguir!

Assim que cruzei a linha de chegada e entrei no acampamento, um dos organizadores da prova registrou meu número de identificação na planilha e indicou a fila onde estavam sendo distribuídas as duas últimas garrafas d’água a que eu teria direito naquele dia. Agradeci e fui pegá-las.

De súbito, quando faltavam poucos metros pra chegar à fila, senti uma forte dor no estômago. Uma mão de ferro apertou minhas vísceras!

O excesso de esforço nas últimas horas havia bagunçado demais meu organismo. Shakespeare estava coberto de razão ao escrever que “todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente”.

E esse sofrimento não era o pior dos problemas! Pelo regulamento, os membros da equipe médica deveriam retirar da prova qualquer competidor que apresentasse condições clínicas perigosas à própria integridade física. Eu não poderia correr o risco de perder daquela maneira, já no primeiro dia de competição, tantos meses de sacrifícios investidos em meu pesado treinamento físico. Eu não podia deixar que me eliminassem. Escondi a dor e fingi que estava tudo bem.

Entrei na fila da água mantendo o melhor sorriso que aquela condição me permitia disfarçar.

Após alguns minutos e muitas dores, garrafas na mão, caminhei em direção à minha tenda. Estava crente que o pior já havia passado.

Não havia.

Não consegui chegar lá.

Os metros até a tenda pareciam mais longos que os 30 quilômetros que eu acabara de correr. Cada passo era uma tortura.

Larguei a mochila e caminhei a esmo, fingindo admirar o deserto enquanto me afastava dos médicos. Escolhi a direção que não havia qualquer pessoa no caminho. A imensidão daquela planície de terra e areia permitiu que eu me afastasse cada vez mais do acampamento e da vista de todos. A dor no estômago apertava como um punho de ferro, me obrigando a parar e respirar fundo. O deserto me testava com cada espasmo. E então, a pergunta inevitável:

O que eu estou fazendo aqui? Uma corrida de 230 quilômetros, 12 quilos nas costas, e o sol do Saara como inimigo”.

A história completa está contada no livro

Correndo a Pé no Saara: 230 km de areia e dunas na Marathon des Sables